terça-feira, 23 de maio de 2017

350º momento cultural: O retorno

As leituras aqui por casa são de modas. Tanto leio livros como se não houvesse amanhã, como mantenho-me a ler uns dez livros ao mesmo tempo que obviamente não acabo. Já comprar livros é um all-time-favourite. Resultado tenho sempre mais livros por ler do que aqueles que efectivamente leio. Um dos últimos que trouxe de Lisboa foi O retorno da Dulce Maria Cardoso. Queria muito o ler por um lado pelos meus próprios estudos pós-coloniais, por outro para o incluir nas minhas aulas e ainda por uns motivos pessoais que agora não interessam muito.

Se não leram o livro e estão a pensar em fazê-lo não continuem podem ficar por aqui. Eu não consigo estar a comentar o livro sem contar a história toda e estragar a surpresa toda. (Boop, ouviste? É contigo!)

Antes do enredo, deixem-me fazer um reparo à edição da Tinta da China. Que coisa bonita para o tacto, capa em relevo e cantos arredondados e capas internas ao estilo de papel de parede.
A história começa em Angola num cenário já em suspenso devido à Guerra/Independência, mas ainda relativamente pacífico. Paz podre, admito, mas ficamos a conhecer a família protagonista que lá vivia bem e como estavam hesitantes em abandonar a sua terra e ingressar na Metrópole sem saberem bem como nem porquê. O narrador é o filho mais novo da família, um rapaz adolescente que tanto descreve os problemas e dilemas com que a família se depara como relata as namoricos próprios da idade, implicâncias com a irmã e as actividades com os amigos.
Há dois capítulos logo no início que achei muito bons (os pobres futuros alunos vão passar a ter de os ler): o último passado em Angola e o da ponte aérea entre Luanda e Lisboa, onde a prisão do pai surge em flashes. Está tão bem escrito que é cinematográfico. Eu que não tenho imaginação nenhuma, vi a alternância de cenas diante dos meus olhos.
Grande parte dos capítulos pauta-se pela vida/sobrevivência em Lisboa e é deprimente, pelos paradoxos que apresenta, pela espera e pelo desespero das pessoas. O leitor partilha a angústia de saber se aquele pai está vivo ou não, se vem, se não, o que lhe aconteceu de todo e como continuar sem ele.
(Vou dizer a seguir se ele vem ou não!)
A certa altura o pai regressa e eu inicialmente pensava que se tratava de um sonho ou miragem, mas não era o pai mesmo e imaginei a alegria daquela visão, numa altura em que ele já estava assumidamente morto. A partir desse momento, a cada página que viravava estava com medo que fosse descrito o que lhe tinha acontecido. Se por um lado queria saber, por outro tinha medo de o ler. As páginas foram passando e nada, o máximo que se mencionou foram as marcas no seu corpo. Mais nada. Senti-me um bocadinho defraudada pela falta de informação, mas pensando bem, é assim que se tratou dessas feridas todas da Guerra Colonial/Pós-Guerra/Guerra Civil. Toda a gente sabe que houve e que deixaram marcas violentas, mas não se fala do assunto.
O fim também assim meio acinzentado. Não sei como poderia ter acabado de outra forma, mas aquele work in progress, apesar de muito realista não me agradou.

Concluindo, gostei bastante do livro e parece-me um retrato fiel ao que aconteceu a muitos.

11 comentários:

Boop disse...

Não vou ler!!!
O post claro, que comecei hoje o livro e quero lê-lo de espírito aberto!
;)
Deixaram África há um par de horas
Esta noite será para o voo
Amanhã verei como correm as coisas ao chegar à metrópole.
Só leio este post depois de escrever o meu daqui a uns tempos.
Prometo que depois volto cá !

Calíope disse...

Sim, sim, faz isso! :) Boas leituras!

Borboleta disse...

Eu achei que a qualidade dos capítulos iniciais não corresponde ao morno dos capítulos finais. Li-o numa penada, mas só gostei mais ou menos. Nota alta para as edições da Tinta-da-China, são sempre excelentes!

Calíope disse...

Borbi: É, não é? O início é muito melhor e o fim sabe a insosso. Dentro do meu género também foi uma penada :D

Boop disse...

Lido!
Sabem o que acho da evolução do livro.
Que retrata o sonho que se foi perdendo. Os dias sem futuro, todos iguais. O impossibilidade de retorno. Nem a África, nem à infância. Retrata o ritmo diferente que a vida tomou (não tão aliciante para as personagens nem para os leitores que na sua avidez voyeur querem ver coisas a acontecer)
Gostei Q.B.
:)

Calíope disse...

Esta tua análise daria um livro bem mais interessante. Não sei se concordo com ela no livro em causa, pois não me parece que o miúdo tenha perdido essa capacidade de sonhar. Por outro lado, sim, a rotina dos dias todos iguais e sem objectivos tanto desinteressa-nos a nós, leitores, como as próprias personagens.

Boop disse...

O Rui: não sei se era sonho ou desespero. A certeza do pai morto. A inserção não conseguida quer na escola quer com os da metrópole. A separação dos amigos de sempre. Ir para a América era fuga, não sonho.
(Pelo menos eu li assim... Mas o bom dos livros é que pormos neles aquilo que a nós nos faz sentido. Provavelmente leste de outra forma!)
:)
E diz lá... O que é que eu leio agora?
Ehehehe
(Estou com um do Omar Pamuk na cabeceira mas não me está a prender...)
Está a chegar um dos meus eventos favoritos na cidade de Lisboa - a feira do livro!

Calíope disse...

Já leste alguma coisa do Agualusa? Que tal o Vendedor de Passados ou o Rainha Ginga? Ou os dois primeiros do Nuno Camarneiro: Debaixo de algum céu (ADORO) e o No meu peito não cabem pássaros.

Boop disse...

Água lusa sim!
Nuno Camarneiro não!
Vai para a lista da feira do livro!

Calíope disse...

Depois diz-me o que achaste de um ou do outro. Tirando aquele ADORO gigante, não vou tecer mais elogios para não te condicionar.

Boop disse...

Leste o prémio leia de 2013?
Comprei por ser de uma colega de faculdade, pura curiosidade...
E gostei tanto!!!
http://www.leyaonline.com/pt/livros/romance/uma-outra-voz/